Converso toda semana com sócios de empresas que pagam time de engenharia, testam protótipo que não vai para frente e bancam meses de pesquisa. Pouquíssimos usam a Lei do Bem. Quando pergunto por quê, a resposta se repete: achavam que era coisa de indústria grande, ou que precisava pedir autorização ao governo.
Não precisa de pedido prévio. A Lei nº 11.196/2005 deixa a empresa aplicar o incentivo direto na apuração do IRPJ e da CSLL e prestar contas depois. Bem usada, ela devolve até 34% do que se gasta com pesquisa e desenvolvimento em imposto que deixa de ser pago.
Por isso a JRX tem um produto específico para a Lei do Bem. Ele cuida do incentivo do começo ao fim, dos projetos que se enquadram à conta do benefício no fechamento do ano.
O mesmo gasto reduz a base duas vezes
O gasto com P&D já é despesa dedutível, como qualquer custo da operação. A Lei do Bem permite excluir, além disso, de 60% a 100% desse mesmo valor do lucro real e da base da CSLL (art. 19). Somando as duas coisas, cada real gasto em pesquisa reduz a base tributável entre 1,6 e 2 vezes.
Para quem paga o adicional de IRPJ, a conta é direta: 15% de IRPJ, 10% de adicional e 9% de CSLL somam 34%. Com a exclusão de 60%, a economia é de 20,4% do gasto (34% × 60%). No teto de 100%, chega a 34%. Sem o adicional de IRPJ, a alíquota de referência cai para 24%.
A conta com R$ 2 milhões em P&D
Uso sempre o mesmo exemplo para mostrar o tamanho disso. Uma indústria no Lucro Real anual gastou R$ 2 milhões com P&D no ano: R$ 1,4 milhão em salários e encargos dos pesquisadores, R$ 300 mil em materiais dos projetos e R$ 300 mil em serviços contratados de uma universidade. Depois de lançar os R$ 2 milhões como despesa normal, o lucro real ficou em R$ 5 milhões.
| Apuração anual (R$) | Sem Lei do Bem | Com Lei do Bem |
|---|---|---|
| Lucro real antes da exclusão | 5.000.000 | 5.000.000 |
| (−) Exclusão adicional de 60% sobre R$ 2 milhões | – | (1.200.000) |
| Base de IRPJ e CSLL | 5.000.000 | 3.800.000 |
| IRPJ 15% | 750.000 | 570.000 |
| Adicional de IRPJ 10% (acima de R$ 240 mil) | 476.000 | 356.000 |
| CSLL 9% | 450.000 | 342.000 |
| Total de IRPJ e CSLL | 1.676.000 | 1.268.000 |
O imposto do ano cai R$ 408 mil, o equivalente a 20,4% de tudo o que foi gasto com P&D. Se o número de pesquisadores tivesse crescido mais de 5% sobre o ano anterior, a exclusão iria a 80% e a economia a R$ 544 mil. Com uma patente concedida a partir do projeto, entram mais 20%, e o total chega a R$ 680 mil.
Quanto a Lei do Bem vale por ano
| Gasto com P&D no ano | Exclusão 60% | Exclusão 80% | Exclusão 100% |
|---|---|---|---|
| R$ 500 mil | R$ 102 mil | R$ 136 mil | R$ 170 mil |
| R$ 1 mi | R$ 204 mil | R$ 272 mil | R$ 340 mil |
| R$ 2 mi | R$ 408 mil | R$ 544 mil | R$ 680 mil |
| R$ 5 mi | R$ 1,02 mi | R$ 1,36 mi | R$ 1,7 mi |
Os outros cinco incentivos da lei
A exclusão adicional é o benefício que mais pesa, mas a lei traz mais cinco, que se somam a ele.
- IPI 50% menor na compra de máquinas e equipamentos novos destinados a P&D (art. 17, II).
- Depreciação integral, no próprio ano da compra, dos equipamentos novos usados em P&D (art. 17, III).
- Amortização acelerada dos intangíveis ligados a P&D, para o IRPJ (art. 17, IV).
- IRRF zerado nas remessas ao exterior para registro e manutenção de marcas, patentes e cultivares (art. 17, VI).
- Exclusão de 50% a 250% do valor aplicado em projetos executados por instituição de pesquisa (ICT) e aprovados por comitê do governo (art. 19-A). Para o mesmo projeto, não se soma aos benefícios dos arts. 17 e 19.
Quatro condições para ter direito
A primeira já tira boa parte das empresas da conversa.
- Estar no Lucro Real. Simples Nacional e Lucro Presumido ficam de fora.
- Ter lucro fiscal no ano. A exclusão fica limitada ao lucro antes dela: não pode gerar nem aumentar prejuízo fiscal, e o que sobrar não passa para o ano seguinte.
- Manter a regularidade fiscal durante todo o período, comprovada por certidão negativa ou positiva com efeito de negativa.
- Prestar contas ao MCTI pelo FORMP&D no ano seguinte. O prazo normal é 31 de agosto; para o ano-base 2025, foi prorrogado para 30 de setembro de 2026.
Segundo o MCTI, 3.878 empresas usaram a Lei do Bem em 2023. É pouco para o tamanho do Lucro Real no país, e o motivo que mais encontro é a empresa nem saber que tem direito, ou não ter controle dos projetos para provar o que gastou.
Quem está no Simples ou no Presumido pode colocar a Lei do Bem na conta da troca de regime. Quando a folha técnica cresce, o Lucro Real com o incentivo às vezes sai mais barato do que o regime atual, e essa simulação precisa ser refeita a cada ano com os números do exercício.
O que conta como P&D
É aqui que acontece a maior parte das glosas. A lei pede inovação com risco técnico de verdade, e a fiscalização sabe separar desenvolvimento de rotina.
Entra no incentivo
- Pesquisa básica e aplicada.
- Desenvolvimento experimental de produto ou processo novo.
- Projeto com incerteza técnica real, mesmo que no fim não dê certo.
- Salários e encargos de pesquisadores, materiais dos projetos e serviços contratados de ICT.
Fica de fora
- Melhoria rotineira, ajuste de layout e correção de bug.
- Customização feita para um cliente específico.
- Implantação de ERP ou compra de software pronto.
- Controle de qualidade e testes de rotina.
Na empresa de software, a linha costuma passar entre construir algo que o time ainda não sabe como fazer e manter o que já funciona. O primeiro pode ser P&D. O segundo é operação, por mais trabalho que dê.
Onde está o risco
- A análise do MCTI vem depois do uso. Projeto reprovado vira imposto a pagar, com multa e juros cobrados pela Receita.
- Sem contabilidade separada por projeto e sem documentação técnica, a glosa é provável.
- Os mesmos gastos não podem usar a Lei do Bem e a Lei de Informática ao mesmo tempo.
- A LC 224/2025 cortou 10% de vários benefícios fiscais federais. A Lei do Bem ficou fora do corte pela IN RFB 2.305/2025, e não por lei, e a exceção depende da lista anual do governo. O PLP 6/2026, do senador Izalci Lucas, quer pôr essa exceção na lei.
Cinco passos para usar sem susto
- Mapear: identificar os projetos com novidade e risco tecnológico.
- Segregar: abrir controle contábil e de horas por projeto antes de o gasto acontecer.
- Apurar: aplicar a exclusão no Lalur e no Lacs do ano.
- Declarar: enviar o FORMP&D ao MCTI no ano seguinte, dentro do prazo.
- Guardar: manter as evidências técnicas pelo prazo de fiscalização.
Se a sua empresa já gasta com pesquisa e está no Lucro Real, comece levantando quanto desse gasto é P&D de fato. Com esse número e o lucro projetado do ano, dá para saber quanto o incentivo vale antes do fechamento, que é quando ainda dá para aproveitar.
Base legal
- Lei nº 11.196/2005, arts. 17 a 26.
- Decreto nº 5.798/2006, que regulamenta os incentivos.
- IN RFB nº 1.187/2011, sobre a apuração.
- Portaria MCTI nº 9.563/2025, sobre o FORMP&D.
- LC nº 224/2025 e IN RFB nº 2.305/2025, sobre a redução linear e suas exceções.
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