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Lei do Bem: até 34% do que a empresa gasta com P&D volta como economia de imposto

A exclusão de 60% a 100% dos gastos com pesquisa e desenvolvimento reduz IRPJ e CSLL de quem está no Lucro Real. A conta com um exemplo de R$ 2 milhões, quem pode usar e onde está o risco.

Revisado em 23 de outubro de 202610 min de leituraTributário

Por Hugo JustinoContador responsável e CEO da JRX Inteligência Contábil · CRC-DF DF-021207/O-3

Lei do Bem: até 34% do que a empresa gasta com P&D volta como economia de imposto

Converso toda semana com sócios de empresas que pagam time de engenharia, testam protótipo que não vai para frente e bancam meses de pesquisa. Pouquíssimos usam a Lei do Bem. Quando pergunto por quê, a resposta se repete: achavam que era coisa de indústria grande, ou que precisava pedir autorização ao governo.

Não precisa de pedido prévio. A Lei nº 11.196/2005 deixa a empresa aplicar o incentivo direto na apuração do IRPJ e da CSLL e prestar contas depois. Bem usada, ela devolve até 34% do que se gasta com pesquisa e desenvolvimento em imposto que deixa de ser pago.

Por isso a JRX tem um produto específico para a Lei do Bem. Ele cuida do incentivo do começo ao fim, dos projetos que se enquadram à conta do benefício no fechamento do ano.

60%de exclusão adicional sobre os gastos com P&D, no padrão
até 80%quando o número de pesquisadores cresce em relação ao ano anterior
+20%sobre o projeto que gerou patente concedida ou cultivar registrado

O mesmo gasto reduz a base duas vezes

O gasto com P&D já é despesa dedutível, como qualquer custo da operação. A Lei do Bem permite excluir, além disso, de 60% a 100% desse mesmo valor do lucro real e da base da CSLL (art. 19). Somando as duas coisas, cada real gasto em pesquisa reduz a base tributável entre 1,6 e 2 vezes.

Para quem paga o adicional de IRPJ, a conta é direta: 15% de IRPJ, 10% de adicional e 9% de CSLL somam 34%. Com a exclusão de 60%, a economia é de 20,4% do gasto (34% × 60%). No teto de 100%, chega a 34%. Sem o adicional de IRPJ, a alíquota de referência cai para 24%.

A conta com R$ 2 milhões em P&D

Uso sempre o mesmo exemplo para mostrar o tamanho disso. Uma indústria no Lucro Real anual gastou R$ 2 milhões com P&D no ano: R$ 1,4 milhão em salários e encargos dos pesquisadores, R$ 300 mil em materiais dos projetos e R$ 300 mil em serviços contratados de uma universidade. Depois de lançar os R$ 2 milhões como despesa normal, o lucro real ficou em R$ 5 milhões.

Apuração anual (R$)Sem Lei do BemCom Lei do Bem
Lucro real antes da exclusão5.000.0005.000.000
(−) Exclusão adicional de 60% sobre R$ 2 milhões–(1.200.000)
Base de IRPJ e CSLL5.000.0003.800.000
IRPJ 15%750.000570.000
Adicional de IRPJ 10% (acima de R$ 240 mil)476.000356.000
CSLL 9%450.000342.000
Total de IRPJ e CSLL1.676.0001.268.000
Empresa hipotética no Lucro Real anual, com todo o gasto qualificado como P&D e lucro suficiente para absorver a exclusão.

O imposto do ano cai R$ 408 mil, o equivalente a 20,4% de tudo o que foi gasto com P&D. Se o número de pesquisadores tivesse crescido mais de 5% sobre o ano anterior, a exclusão iria a 80% e a economia a R$ 544 mil. Com uma patente concedida a partir do projeto, entram mais 20%, e o total chega a R$ 680 mil.

Quanto a Lei do Bem vale por ano

Gasto com P&D no anoExclusão 60%Exclusão 80%Exclusão 100%
R$ 500 milR$ 102 milR$ 136 milR$ 170 mil
R$ 1 miR$ 204 milR$ 272 milR$ 340 mil
R$ 2 miR$ 408 milR$ 544 milR$ 680 mil
R$ 5 miR$ 1,02 miR$ 1,36 miR$ 1,7 mi
Economia ≈ 34% × percentual de exclusão × gasto com P&D. Vale quando o lucro do ano absorve toda a exclusão e a empresa paga o adicional de IRPJ.

Os outros cinco incentivos da lei

A exclusão adicional é o benefício que mais pesa, mas a lei traz mais cinco, que se somam a ele.

  • IPI 50% menor na compra de máquinas e equipamentos novos destinados a P&D (art. 17, II).
  • Depreciação integral, no próprio ano da compra, dos equipamentos novos usados em P&D (art. 17, III).
  • Amortização acelerada dos intangíveis ligados a P&D, para o IRPJ (art. 17, IV).
  • IRRF zerado nas remessas ao exterior para registro e manutenção de marcas, patentes e cultivares (art. 17, VI).
  • Exclusão de 50% a 250% do valor aplicado em projetos executados por instituição de pesquisa (ICT) e aprovados por comitê do governo (art. 19-A). Para o mesmo projeto, não se soma aos benefícios dos arts. 17 e 19.

Quatro condições para ter direito

A primeira já tira boa parte das empresas da conversa.

  1. Estar no Lucro Real. Simples Nacional e Lucro Presumido ficam de fora.
  2. Ter lucro fiscal no ano. A exclusão fica limitada ao lucro antes dela: não pode gerar nem aumentar prejuízo fiscal, e o que sobrar não passa para o ano seguinte.
  3. Manter a regularidade fiscal durante todo o período, comprovada por certidão negativa ou positiva com efeito de negativa.
  4. Prestar contas ao MCTI pelo FORMP&D no ano seguinte. O prazo normal é 31 de agosto; para o ano-base 2025, foi prorrogado para 30 de setembro de 2026.

Segundo o MCTI, 3.878 empresas usaram a Lei do Bem em 2023. É pouco para o tamanho do Lucro Real no país, e o motivo que mais encontro é a empresa nem saber que tem direito, ou não ter controle dos projetos para provar o que gastou.

Quem está no Simples ou no Presumido pode colocar a Lei do Bem na conta da troca de regime. Quando a folha técnica cresce, o Lucro Real com o incentivo às vezes sai mais barato do que o regime atual, e essa simulação precisa ser refeita a cada ano com os números do exercício.

O que conta como P&D

É aqui que acontece a maior parte das glosas. A lei pede inovação com risco técnico de verdade, e a fiscalização sabe separar desenvolvimento de rotina.

Entra no incentivo

  • Pesquisa básica e aplicada.
  • Desenvolvimento experimental de produto ou processo novo.
  • Projeto com incerteza técnica real, mesmo que no fim não dê certo.
  • Salários e encargos de pesquisadores, materiais dos projetos e serviços contratados de ICT.

Fica de fora

  • Melhoria rotineira, ajuste de layout e correção de bug.
  • Customização feita para um cliente específico.
  • Implantação de ERP ou compra de software pronto.
  • Controle de qualidade e testes de rotina.

Na empresa de software, a linha costuma passar entre construir algo que o time ainda não sabe como fazer e manter o que já funciona. O primeiro pode ser P&D. O segundo é operação, por mais trabalho que dê.

Onde está o risco

  • A análise do MCTI vem depois do uso. Projeto reprovado vira imposto a pagar, com multa e juros cobrados pela Receita.
  • Sem contabilidade separada por projeto e sem documentação técnica, a glosa é provável.
  • Os mesmos gastos não podem usar a Lei do Bem e a Lei de Informática ao mesmo tempo.
  • A LC 224/2025 cortou 10% de vários benefícios fiscais federais. A Lei do Bem ficou fora do corte pela IN RFB 2.305/2025, e não por lei, e a exceção depende da lista anual do governo. O PLP 6/2026, do senador Izalci Lucas, quer pôr essa exceção na lei.

Cinco passos para usar sem susto

  1. Mapear: identificar os projetos com novidade e risco tecnológico.
  2. Segregar: abrir controle contábil e de horas por projeto antes de o gasto acontecer.
  3. Apurar: aplicar a exclusão no Lalur e no Lacs do ano.
  4. Declarar: enviar o FORMP&D ao MCTI no ano seguinte, dentro do prazo.
  5. Guardar: manter as evidências técnicas pelo prazo de fiscalização.

Se a sua empresa já gasta com pesquisa e está no Lucro Real, comece levantando quanto desse gasto é P&D de fato. Com esse número e o lucro projetado do ano, dá para saber quanto o incentivo vale antes do fechamento, que é quando ainda dá para aproveitar.

  • Lei nº 11.196/2005, arts. 17 a 26.
  • Decreto nº 5.798/2006, que regulamenta os incentivos.
  • IN RFB nº 1.187/2011, sobre a apuração.
  • Portaria MCTI nº 9.563/2025, sobre o FORMP&D.
  • LC nº 224/2025 e IN RFB nº 2.305/2025, sobre a redução linear e suas exceções.

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